Você é casado? Tem filhos? Esconde mais alguma coisa?
Que dureza escrever sobre isso quando parecia que ao menos em alguns espaços e para algumas pessoas essa discussão já não fazia sentido.
Essa semana, mais precisamente, a partir do domingo, 12 de outubro passado uma avalanche de matérias em todas as mídias despencou sobre nossas cabeças perguntando sobre o direito de privacidade do candidato a prefeitura de São Paulo Gilberto Kassab (DEM); tudo isso alavancado pela propaganda da campanha de Marta Suplicy (PT) numa peça publicitária que no final de um comercial em que fazia uma série de indagações legítimas sobre o passado político de Kassab terminava com a lead que abre esse jogo rápido.
Talvez a campanha de Marta Suplicy não tivesse noção do tamanho da encrenca em que estava se metendo, pois foi uma grita geral, que juntou em mesmas opiniões, com intensidades diferentes, pessoas que até então não sentariam à mesma mesa para um cordial café.
Na mídia as perguntas balizavam entre: Onde está aquela Marta Suplicy defensora das minorias? Cadê a sexóloga sem preconceitos que assumiu romper uma relação de anos e para casar-se já próxima dos 60 anos? Por onde anda a mulher que fez da parceira civil entre homossexuais uma das suas bandeira de luta?
Gilberto Dimenstein em sua Pensata no dia 13/10 na Folha Online faz um paralelo entre a defesa que fez a época quando do casamento de Marta Suplicy com o Favre, defendendo a idéia de que não interessava a vida afetiva da então prefeita, dizendo que o fato de ela assumir uma nova relação era um sinal de coragem e deveria ser respeitada. Dimenstein diz que pode parecer ingenuidade dele, mas tem dificuldade de acreditar que ela esteja envolvida diretamente nisso, pois um dos traços mais notáveis de Marta é sua defesa autêntica e corajosa da diversidade.
Já Reinaldo Azevedo em seu Blog diz que esta atitude da campanha de Marta diz que Kassab não está sendo pessoalmente atingido, mas todos os gays do país estão. Avança sobre Marta ao afirmar que ela quer lhes cassar a cidadania com uma campanha covarde e homofóbica, que nem mesmo ousa dizer seu nome. É interessante ver aqui Azevedo utilizando-se da expressão homofobia e fazendo defesa da cidadania dos gays, coisa até então não vista por quem aqui escreve.
No Caderno Opinião da Folha de São Paulo de 14/10 a colunista Eliana Cantanhêde pergunta: “O que é isso, companheira?” trazendo uma pergunta interessante: o que a psicóloga e sexóloga Marta Suplicy pensa da propaganda eleitoral da candidata Marta Suplicy? E isso sintetiza muito o que pensamos: Marta é uma mulher de vanguarda, tem uma história conectada às boas causas: à defesa das mulheres, dos homossexuais, das minorias. Pode, muito bem, sofrer uma derrota e continuar em frente, de cabeça erguida, na vida e na política. Não precisa que sua campanha use desse expediente.
Em linhas gerais a Folha dominou a cena nessa discussão e segundo um amigo que trabalha no Estadão a informação de cima era que tratassem isso com muito cuidado e sem alardes, de forma quase desapercebida, como se isso fosse possível.
Outro grupo afetado e que se posicionou rapidamente foram os ativistas LGBT organizados na campanha (dos quais faço parte) que publicou nota dizendo que enquanto a campanha não fosse revista e mudada as atividades estariam suspensas, o que causou um susto, pois uma reflexão contrária a campanha tomava vulto e apontava que o cominho escolhido era infeliz.
A nota dizia que tal ação viola o direito à privacidade e à intimidade - direito humano fundamental e constitucional de todas e todos os cidadãos; reforça o preconceito e a homofobia; reforça a heternormatividade (que considera aceitável apenas a heterossexualidade) ao insinuar que só será um bom gestor público aquele/a que tem cônjuge e filhos; aposta apenas num modelo familiar e finaliza dizendo porque uma candidatura com a trajetória de Marta, nunca poderia adotar essa linha, por Marta ser dentro do PT e na vida pública pioneira na defesa dos direitos das mulheres e dos homossexuais, um pouco na linha da maioria dos articulistas que ficaram pasmos com a historia de vida da candidata e os prejuízos que a campanha causaram.
Não poderia terminar esse Jogo Rápido sem repercutir o que disseram alguns políticos, iniciando com o Presidente Lula, que no Estadão do dia 13/10 reprovou o comportamento agressivo da campanha de Marta Suplicy, que segundo ele fez insinuações de ordem pessoal na propaganda eleitoral ao adversário e atual prefeito Gilberto Kassab. Ponto pra ele, pois foi vitima do caso Lurian e não aprova o mesmo artifício.
A Deputada Federal pelo PSB Luiza Erundina disse na Folha da São Paulo de 14/10 que não acha correto esse tipo de propaganda, pois a vida pessoal não interfere no exercício da função pública. Não se deve interferir na vida das pessoas e o que não diz respeito à vida pública deve ser preservado. Não podíamos esperar outra coisa dela.
Já Adriano Diogo, Deputado Estadual do PT concorda com a linha adotada na campanha e na Folha Online de 14/10 vai mais adiante dizendo: "Amante não é o amor oficial do dia. Amante é o amor às escuras. Por exemplo, ninguém descobriu qual é o verdadeiro amor de Gilberto Kassab até hoje (...) Amante não é uma palavra muito adequada para a política. É para outras circunstâncias". Sem comentários...
Como disse no inicio, difícil escrever sobre isso, pois parece que as coisas não combinam, mas uma lição foi aprendida: as questões da orientação sexual foram tratadas de forma muito correta na maioria das matérias, salvaguardando o direito a privacidade. Apesar de triste o episódio, aprendemos algo com ele: o vale tudo definitivamente não vale!
Beto de Jesus
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