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JOGO RÁPIDO

COMO A SEXUALIDADE E O ABORTO ENTRAM EM CENA
NAS CAMPANHAS ELEITORAIS 2008

Em ano de eleições, temas delicados como sexualidade e aborto podem, e deveriam, vir à tona. Em 2008, com dimensões diferentes, os dois entraram em cena, o primeiro de forma clara - com a presença forte de candidatas na corrida presidencial americana e a problemática propaganda da campanha de Marta no segundo turno das eleições para a prefeitura de São Paulo, o segundo, como um problema que os políticos tentam evitar.

Nos EUA, o gênero foi especialmente importante na figura da candidata a indicação pelo partido democrata Hillary Clinton, que foi a primeira mulher com chances reais de chegar a presidência do país. O pesquisador Richard Parker, professor e doutor em antropologia pela Universidade de California-Berkeley – EUA, considera as eleições americanas deste ano históricas por isso acredita que a presença marcante de Hillary e o fato de ter perdido a indicação para um candidato negro foram como um divisor de águas na política americana. “Essa é uma eleição transformadora”, disse Parker.

Depois da presença de Hillary, os republicanos contra-atacaram com a polêmica indicação de Sarah Palin para vice de John McCain. A manobra parece ter sido uma estratégia calculada para atrair simpatizantes de Hillary a votarem numa figura feminina. No entanto, Palin aparece como uma contradição, invertendo a posição política esperada por uma mulher candidata. Extremista, Palin é declaradamente contra o aborto, como o são tradicionalmente os republicanos conservadores. Parker entende a candidata como um “fenômeno passageiro” e concorda com os analistas que a vêem como o último suspiro da tradição conservadora na política norte-americana.

Na reta final das eleições, os dois candidatos com chances na Casa Branca, o democrata Barack Obama e o republicano John McCain, se ocuparam mais com a crise financeira e preferiram deixar temas delicados como o aborto, segundo Parker o assunto mais importante na base conservadora, fora da discussão.  Preferiu-se que o tema “não fosse colocado à mesa”, diz Parker.  O especialista lembra que numa provável vitória, o candidato democrata vai ter que se preocupar em nomear juízes que sejam a favor do aborto se quiser garantir a manutenção deste direito nos EUA, especialmente nos estados conservadores

No Brasil, a presença de Marta Suplicy, de postura histórica de defesa dos direitos sexuais e reprodutivos e imagem ligada ao feminismo, foi, no mínimo, questionável. Uma tacada infeliz de sua campanha colocou em cheque toda a sua trajetória de liderança progressista. Richard Parker achou lamentável a propaganda ofensiva que seu partido colocou no ar sugerindo, de forma pejorativa, as escolhas de aspecto privado do seu adversário, Gilberto Kassab. 

Também numa estratégia para conquistar eleitores católicos e “limpar” a imagem de Marta, defensora do aborto e dos homossexuais, o PT, em parceria com padres da ala progressista da Igreja, prepararam uma “Carta aos Cristãos”, que seria distribuída em missas na cidade de São Paulo. Apesar da posição conhecida de Marta em relação ao aborto, a candidata não colocou o assunto como uma questão em sua campanha. Quanto a Kassab, suas implicações não são claras.

Uma discussão ampla sobre o aborto deveria ser promovida de forma positiva, mas o clima hoje não é favorável e é preciso observar como as eleições 2008 influem e reconstituem as forças políticas no Brasil. Para Parker, a campanha de Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo "é sintomática do ressurgimento de um conservadorismo (ou de uma tendência conservadora) ainda muito forte em alguns setores da população brasileira, onde a rejeição do aborto é ainda fortemente enraizada." 

Richard Parker é doutor em Antropologia pela Universidade de California-Berkeley, Professor de Ciências Sociomédicas, Escola da Saúde Pública, Universidade de Colúmbia, Nova York, e Diretor-Presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, no Rio de Janeiro), além de membro do Conselho Diretor da CCR.

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