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JOGO RÁPIDO
Uma das mais evidentes constatações no Brasil e o mundo é de que a criminalização do aborto não impede as mulheres de realizá-los, no entanto as expõe a todos os riscos da clandestinidade, pois mesmo quando atendidas por profissionais, estão na condição de criminosas. A justiça, no Brasil, sempre teve muita dificuldade de levar à cadeia mulheres que abortam (cerca de 1 milhão por ano) e as pessoas que realizam os procedimentos - médicas/os, enfermeiras, ou praticantes em geral, por razões objetivas: não teriam como manter presas tantas pessoas; e subjetivas - a dupla moral que circunda a condenação do aborto.
No entanto, a nova onda conservadora no país passou a buscar a criminalização do aborto, o que se faz através do estouro de clínicas, denuncismo, projetos de lei, prisão das mulheres, acompanhantes, profissionais e prontuários, pois sem mulheres na maca, prontuários e cena de crime pela tevê e jornal, não há crime visível.
A prisão da médica do Mato Grosso do Sul, e agora a cassação do seu diploma, só confirmam o já mais que dito: uma médica a menos fará aborto clandestino no Brasil, mas as mulheres não deixarão de fazê-lo. A razão é simples: o direito de decidir pelo seu corpo e sua vida, em especial quando lhes são negados direitos reprodutivos, é inalienavelmente de cada pessoa. O Conselho Federal de Medicina, ao omitir-se quando procurado pelo movimento de mulheres há um ano atrás, e depois cassando o diploma da médica, mandou um recado para todas nós: lixem-se! Foi a sua grande contribuição para a democratização da sociedade brasileira, afinal, médicos não fazem abortos.
Telia Negrão
Secretária Executiva - Rede Feminista de Saúde
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