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JOGO RÁPIDO

Excelente o artigo de Rui Castro “Inocentes e Indefesas” publicado na FSP (04/03/2009) sobre os chocantes casos de estupro registrados no país na última semana, em especial a tragédia da menina de nove anos violentada sistematicamente pelo padrasto e grávida de gêmeos. O texto é especialmente inspirador quando nos lembra que há mais de três décadas temos lutado pela liberdade sexual no mundo e também no Brasil.

Mas quero fazer um reparo ao texto. Precisamos ter mais cautela ao afirmar que a violência sexual tem aumentado por efeito da ostensiva oferta de sexo na mídia e na moda.  No final dos anos 1970 eu vivia em Pernambuco e na primeira pesquisa que fizemos sobre violência sexual identificamos cerca de dez casos de estupro sendo processados pela justiça. A metade dos casos eram estupros de crianças menores de seis anos, sendo que uma delas era um menino e duas haviam sido assassinadas. Todos os casos haviam acontecido na zona da mata, ou seja no mundo dos canaviais e da pobreza, onde naquele momento o acesso à televisão era extremamente limitado.

Ou seja, o estupro de Alagoinha é como um sintoma melancólico de que, do ponto de vista das relações de gênero, nada  mudou nesses trinta anos. Contudo vale dizer que os casos que identificamos naquele momento nem mesmo chegavam aos jornais locais. Tinham que ser investigados nas delagacias e fóruns. Nem mesmo podíamos imaginar que um dia o estupro seria objeto de um artigo de opinião escrito por um jornalista de renome. Hoje a violência sexual tem mais visbilidade pública e existe, mal ou bem um consenso social e institucional de que ela deve ser erradicada sendo a Lei Maria da Penha é ilsutração flagrante dessa transformacão cultural e política.  

Também quero problematizar afirmação final do artigo: “Esquecemo-nos de que não há nada como o homem para desmoralizar uma utopia” . Não sei se o articulista, ao usar o termo “homem”  queria denotar os homens de carne e osso ou a humanidade. Seja como for sua fórmula, embora atraente,   mobiliza um imaginário simplista: o “homem” do darwinismo vulgar que não consegue conter seus instintos e viceja numa fronteira ambígua entre natureza e cultura.  Eu diria  que na origem dos brutais episódios que inspiram o artigo não está esse “homem . Mas  sim uma certa construcão da masculidade, que é milenar mas não natural. Um de seus traços mais perversos é sedimentar uma percepção de que os corpos de outras e outros mais frágil podem e devem ser submetidos a violência e brutalidade como prova de poder e supremacia.

Enquanto escrevia essa nota fui informada que a menina de Alagoinha já estava sendo submetida a um procedimento de interrupção da gravidez, no seu caso duplamente  previsto pelo código penal que o autoriza para gravidez resultante de estupro e risco de vida para a mulher. Isso foi possível por que no curso das últimas três décadas muitas mulheres mas também muitos homens, que contestam a construção cultural da supremacia masculina,  tem lutado incessantemente pela igualdade entre os gêneros, pela eliminacão da violência sexual e pelo acesso ao aborto legal e seguro. Ou seja,  em que pesem paradoxos e contradições estamos também frente a sinais de que as utopias dos anos 1970 não foram inteiramente inócuas.

Sonia Corrêa
Pesquisadora Associada da ABIA
Co-coordenadora do Observatório de Sexualidade e Política
Membro da Comissão de Cidadania e Reprodução
Rio de Janeiro,
scorrea@abiaids.org.br

  

RUY CASTRO

Inocentes e indefesas
RIO DE JANEIRO - Uma estudante de 18 anos disse ter sido estuprada dentro do campus de sua universidade, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, no fim de semana passado. O homem a teria seguido na rua, entrado no campus com ela e, à força de uma arma, levado a garota para uma área deserta do prédio e a violentado.
Nesta segunda-feira, a polícia de Alagoinha (230 km de Recife, PE) prendeu um homem de 23 anos, suspeito de violentar sua enteada, de 9 anos. A menina engravidou de gêmeos, está no quarto mês de gestação e terá de abortar. O rapaz confessou ter estuprado também sua outra enteada, de 14 anos, portadora de deficiência física e mental. A mais nova contou que era obrigada a fazer sexo com o padrasto desde os 6 anos.
E, também no sábado último, outra menina de 6 anos foi encontrada violentada e morta num bairro de Frutal (611 km de Belo Horizonte, MG). Um lavrador, acusado do crime, confessou ter encontrado a pequena na rua, atraído-a para sua casa sob promessa de lhe dar bombons e se despido. Ela se assustou e ameaçou fugir; ele então a esfaqueou e a estuprou.
Essas são apenas algumas das últimas notícias. Mas é raro o dia em que o jornal não registre miséria parecida. Tem-se a impressão de que a incidência desse tipo de crime aumentou. Pelo visto, a enorme oferta de sexo na sociedade moderna, ostensiva na televisão, na propaganda, na moda etc., não é para todos. Apenas estimula a que alguns queiram a sua parte nem que seja na forma de garotas inocentes e indefesas.
A geração de 20 anos em 1968 tinha tanto sexo à disposição que não cogitava sequer recorrer a profissionais. O mundo parecia maduro para uma linda democracia sexual, em que todos viveriam à farta nesse departamento. Esquecemo-nos de que não há nada como o homem para desmoralizar uma utopia.

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