
Ciclo de DebatesTransexuais e travestis no centro do debate do direito à saúde Ciclo de Debates As políticas de saúde pública foram o centro das discussões do primeiro dia de debates do seminário “Transexualidade, Travestilidade e Direito à Saúde”, que inaugura a série Ciclo de Debates “Democracia, Estado Laico e Direitos Humanos”, da CCR – Comissão de Cidadania e Reprodução em 2010. O movimento das mulheres e homens transexuais e dos travestis, além de grupos feministas e pesquisadores, lotaram o auditório do Centro Universitário Maria Antônia, em São Paulo, para falar dos problemas relacionados ao tema enfrentados no Brasil, América Latina e em outras partes do mundo sob a perspectiva do campo do direito à saúde. A abordagem atual da transexualidade e travestilidade escolhida para o seminário da CCR trouxe questões fundamentais para as reivindicações por programas de saúde mais eficientes e abrangentes no SUS e em outras esferas do cotidiano dos transexuais e dos travestis. Desafios à autonomia e ao direito à saúde A mesa de abertura teve como foco central o cenário jurídico hoje no Brasil e no mundo em termos de garantias e defesa dos direitos aos serviços públicos de saúde dos transexuais. Mauro Cabral, co-diretor da GATE – Global Advocates for Trans Equality e membro da Red de Hombres Trans en el Activismo y del Consorcio Latinoamericano de Trabajo sobre Intersexualidad, falou da identidade de gêneros e tocou no problema da autonomia. Para o pesquisador e ativista argentino, é preciso incorporar a identidade de gêneros com liberdade. “O desafio é como ter acesso aos recursos médicos para a autonomia e não pelo viés da patologia. A autonomia tem que ser uma possibilidade, tem que haver escolha. Hoje as pessoas se veem obrigadas a adotar um gênero”, afirmou.
Miriam Ventura sublinhou o marco da complexidade que deve pautar as causas e argumentações no campo dos direitos dos transexuais. A advogada e pesquisadora em Direitos Humanos e Saúde, Direitos Sexuais e Reprodutivos e Bioética falou da judicialização da saúde e ao mesmo tempo de uma medicalização da justiça no Brasil, acusou a posição acrítica da justiça e uma regressão dos direitos sobre o próprio corpo na realidade latinoamericana. “Caminhamos com bastante atraso, porém seguimos um caminho de apropriação”, concluiu Miriam, que citou a portaria do Ministério da Saúde que prevê a cobertura de procedimentos de transformação do corpo e a necessidade de melhorar o estatuto de regulação para o mercado privado voltado para a área. Países latinos como a Colômbia e a Nicarágua já avançaram em relação às políticas públicas de saúde voltadas para os transexuais, com a garantia da cobertura do sistema público de saúde da realização de cirurgias de “reparação genital”. No Brasil, o movimento reivindica uma despatologização da transexualidade e travestilidade que vigora nas políticas de saúde pública e no atendimento do SUS. Outra questão compareceu durante o debate, a necessidade de se criar uma rede mais articulada para a configuração de demanda política coletiva das reivindicações desses grupos. Mauro Cabral colocou a importância da presença estratégica de representantes transexuais em espaços de produção do saber, uma ”ética de ocupação de espaços” e deixou uma pergunta: “Como os transexuais podem ser reconhecidos como produtores de saber?”. O debate destacou também o cruzamento do movimento feminino, dos direitos sexuais e reprodutivos, do direito à saúde e do movimento transexual. Reivindicações
A diretora do Departamento de Apoio a Gestão Participativa da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa da Presidência da República, Dra. Ana Costa, vê ao mesmo tempo um avanço na formalização de políticas públicas e uma “binarização de gêneros”. Ana Costa aposta em estratégias de “livre expressão de gênero” para a democratização dessas políticas em três linhas: na prevenção e tratamento da AIDS, na integralidade da política de saúde dos LGBT e nas modificações corporais do sexo. A diretora acredita que até 2012 a despatologização poderá trazer mudança na lógica de atendimento na saúde e universalizar o debate das modificações corporais do sexo no SUS. As reivindicações dos grupos dos transexuais e travestis ganharam voz a partir das colocações de Carla Machado, coordenadora executiva do Fórum Paulista LGBT e membro da Aracê – Rede Social em Direitos Humanos, Feminismos e Transexualidade. Carla reafirmou o direito à identidade de gênero, em obediência aos princípios de Yogyakarta. Entre as reivindicações no campo da saúde, estão: padronizar a nomenclatura médica, hoje pautada no biológico, para uma pautada nos contextos vivenciais, a extinção imediata do termo “mudança de sexo” ou “readequação” para “adequação cirúrgica genital”, e ampliar os serviços oferecidos pelo SUS, incluindo bioplastia, prótese de glúteo e de mama, depilação a laser, raspagem do pomo de adão e afinação das cordas vocais. “Nosso foco está no ideal e no real e não no medo e na patologia. Nossa pauta é a despatologização, a saúde entendida como um mecanismo de inclusão”, concluiu Carla.
Alexandre Santos, presidente da Associação da Parada do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de São Paulo e representante do Brasil na Rede Latino Americana de Homens Transexuais, denunciou a “invisibilidade dos homens transexuais”. A portaria do Ministério da Saúde não contempla as reivindicações desse grupo, e não há nenhum programa de saúde voltado aos homens transexuais, nem os de tratamento e prevenção da AIDS. “As demandas são as mesmas das mulheres trans e dos travestis, mas o maior problema é a invisibilidade”, fechou Alexandre. O movimento dos homens transexuais pede a retirada da hoje chamada “cirurgia de mudança do sexo” da lista dos procedimentos experimentais e aguarda resposta a carta enviada recentemente ao Ministério da Saúde. O debate rendeu e continua amanhã, abrindo o segundo dia do seminário, a partir das 9h, e vai buscar definir uma agenda para ações futuras no campo do direito à saúde dos transexuais e travestis.
FotosFotos: Diego Kuffer
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