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Por Susana Chavez

 
5/4/2012

Toda vez que escuto o termo "anencefalia", a primeira lembrança que me ocorre é a agitada sala de parto da Maternidade de Lima. Eram os últimos dias de meu estágio, e como minhas colegas, tinha me acostumado com a intensa rotina.

Apressadas, acostumávamos descer e subir escadas, levando os recém-nascidos/as, depois que a mãe exausta e dolorida apenas dava uma olhada e verificava se era menina ou menino, para novamente começar os cuidados com outra mulher. Naquele dia, nada predizia que poderia ser diferente. Uma mulher, cerca de 30 anos, foi transferida rapidamente da sala de emergência. Não havia muito tempo, seu rosto contorcido e o grito engasgado na garganta, nos indicava que o parto estava para acontecer. A técnica que a trouxe apenas soube dizer, está pronta! Olhei rapidamente seu histórico médico, tinha 3 filhos e não tinha feito o pré-natal durante a gravidez.


Com voz entrecortada, me disse que seu esposo era um policial e que tinham acabado de chegar de outra região. O diagnóstico imediato foi uma apresentação de face e o médico decidiu me dar a incumbência deste parto tão especial. Para evitar complicações devido à obstrução pela estranha posição do feto, foi preciso fazer uma episiotomia (corte na vagina) e logo foi aparecendo um rosto de forma estranha, onde presumi que o motivo da deformação fora devido às contrações que faziam as paredes da vagina, esta conclusão durou alguns segundos, pois logo em seguida todo o corpo deslizou por minhas mãos. Fiquei surpresa com a estranha forma da cabeça; era do sexo feminino. De repente, o silêncio em que estávamos foi interrompido quando alguém mencionou, é anencefalia.


A mulher atordoada pela dor, mas também ciente do que acontecia a seu redor perguntava: O que está acontecendo? O que eles querem dizer? Eu posso ver o meu bebê? Eu não sabia o que fazer, se mostrava o bebê ou não e todas as palavras ficaram presas dentro de mim. Enquanto isso, o médico tentou explicar a ela que nem todas as gestações são normais, e nem todos os bebês que nascem poderão viver e que este era um desses casos. Lhe perguntei se queria vê-la mesmo assim, explicando que se tratava de uma grave deformação. Bem forte, me disse: Não! E então, ficou um estranho silêncio na sala, como se de repente mais nada fosse importante, nem sequer a dor ao remover a placenta ou fazer a sutura. Nunca mais soubemos nada a respeito daquela mulher, a recém-nascida viveu 48 horas e concluímos que a anencefalia não fora a única deformação. Finalmente, o pequeno corpo terminou no departamento de patologia e que eu saiba, nunca mais ninguém perguntou sobre ele.


Com esta pequena história, procuro abordar o sentimento das mulheres, considerando o que Dr. Távara conseguiu desenvolver uma análise completa das implicações de uma gravidez anencefálica para a saúde física e psicológica das mulheres. Um ponto de partida é nos perguntar se seríamos capazes de assumir e completar a gestação de um feto anencefálico. Provavelmente a mulher da minha história nunca teve a oportunidade de saber com antecedência, por isso o choque e espanto. Mas o que acontece com as mulheres que conseguem ter um rápido diagnóstico? Seria justo obrigá-las a manter uma gravidez deste tipo até as últimas consequências? Se for assim, então o que é que nós valorizamos? Sem dúvida, um produto da concepção que nem sequer atende aos padrões da vida humana, já que não tem resposta cerebral, confrontando a vida, saúde, bem-estar, anseios, esperanças e a desejada maternidade das mulheres.


Os tempos mudaram, a medicina também, agora ela nos oferece melhores possibilidades de saber a tempo, se o feto será ou não viável. Ninguém pode acreditar que as leis são justas quando a vida, o corpo e a saúde das mulheres continuem sendo consideradas recipientes, igualmente aquele que não tem nenhuma expectativa de vida. Contamos com melhores recursos tecnológicos para darmos melhores condições de vida, portanto, não neguemos estes recursos, não só para garantir que as mulheres possam ter maternidades desejadas e saudáveis, mas também para ter filho (as) amado (as) e protegido (as).

Apresentação assinada por Susana Chavez (Diretora da PROMSEX - Centro de Promoção e Defesa dos Direitos Sexuais e Reprodutivos e Diretora Executiva do CLACAI ), retirada da publicação "Porqué la anencefalia debe justificar el aborto terapéutico", publicado pelo Dr. Luis Távara Orozco em 2006 (texto traduzido).

 

 
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