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Três mulheres que passaram por série de tentativas de fertilização in vitro falam sobre a mistura de esperança, decepção e sofrimento provocada pelos insucessos

Correio Braziliense
 
18/04/2010

Correio Braziliense

Paloma Oliveto

Um grupo de seis mulheres aguarda a consulta no Hospital Regional da Asa Sul (Hras). Elas não se conhecem, mas, rapidamente, viram confidentes. Estão ali para tentar realizar o sonho da maternidade. É a primeira vez que fazem o tratamento. Nenhuma passou, ainda, pela alegria ou a decepção de abrir o teste de gravidez, depois de se submeterem ao processo. Todas sabem, entretanto, o que é esperar por um filho que nunca vem — seja pela idade avançada ou por problemas biológicos, elas não podem ser mães naturalmente.

Em cerca de 20 minutos, trocam experiências e informações — muitas sem qualquer caráter científico, baseadas apenas no desespero da infertilidade. São receitas de garrafadas, novenas, promessas, simpatias. Uma delas convida as demais para ir à igreja: “Hoje, uma mulher que não podia ter filhos vai dar o testemunho. Pediu tanto a Deus que conseguiu”. Outra fornece o endereço de uma vendedora ambulante que faz “chás milagrosos”.

Segundo as estatísticas, três delas não vão engravidar. As chances de se obter sucesso na fertilização in vitro são de 50% na primeira tentativa, de acordo com Rosaly Rulli Costa, coordenadora de Reprodução Humana da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. O resultado negativo será, provavelmente, a pior notícia que já receberam na vida. Algumas poderão desistir, outras se apegarão à fé, seja ela na religião, na ciência ou na sorte.

O Correio ouviu o depoimento de três mulheres que vivenciaram o tratamento de reprodução assistida, sem sucesso. As trajetórias são diferentes, mas têm elementos em comum. A expectativa, a cobrança, o medo, a frustração — tudo isso faz parte da vida de uma pessoa que persegue, incansavelmente, o subjetivo conceito de instinto materno. “O bem maior da humanidade é ter filhos. Todos queremos nos perpetuar através do tempo”, sustenta Rosaly Rulli Costa.

Aguardando um milagre

O quarto de Ana Beatriz e Samuel já foi planejado. Branco misturado a cores claras — incluindo rosa, em homenagem à menina. Há quatro anos, ele está pronto na cabeça de Flávia Helena Alarcão, 38. Mas as paredes coloridas só foram erguidas na imaginação da administradora. Flávia e o marido, Júnior, não podem ter filhos. Tecnicamente, as chances de o casal conceber uma criança são mínimas. Depois de duas tentativas de reprodução assistida frustradas, a esperança, porém, não acabou. “Vou engravidar, mesmo que seja por um milagre.”

Flávia vem de uma família fértil. A mãe teve três filhos; a avó, 10. São mais de 50 netos. Juntos, os dois irmãos da administradora são pais de quatro crianças. Só ela, a filha do meio, não gerou descendentes. Evangélica, a administradora agarra-se à fé. Se Sara, mulher de Abraão, concebeu aos 90 anos, por que não esperar o mesmo? “Na hora certa, Deus vai dar meu filho”, acredita.

Em 2006, Flávia experimentou o gosto de se sentir mãe. Por cinco dias, esteve grávida. Pela contagem hormonal, provavelmente eram gêmeos. Certa de que um dos filhos seria do sexo feminino, a única dúvida que teve foi sobre o nome do garotinho: Samuel ou Isaac.

A gravidez foi resultado da primeira tentativa de fertilização in vitro do casal, realizada no Hospital Regional da Asa Sul (Hras). Desde criança, Flávia queria ser mãe, mas Júnior sofre de azoospermia, falta de espermatozoides na ejaculação. Um ano depois de começar a morar junto, o casal procurou a equipe da ginecologista Rosaly Rulli, no Hras. Em 2006, conseguiu atendimento. O período de espera foi de muita ansiedade. “Você vê grávidas na rua, vê filmes com crianças, vê partos, e tudo isso mexe. No Dia das Mães, eu sofria muito”, diz.

Então estagiária de uma empresa da área médica, Flávia levava com ela, todos os dias, o isopor com as injeções de hormônio que precisava tomar. Corria da 515 Sul, onde estagiava, à 914 Sul para fazer os exames que detectavam o tamanho do óvulo. Quando chegou a hora da coleta, sentiu dores intensas. O sofrimento compensou. Um dia antes de pegar o resultado do exame de gravidez, Flávia não dormiu. Às 7h em ponto, já estava no hospital onde fez o teste. “Liguei para o meu marido e falei: ‘Oi, papai!’” Não demorou para a alegria se transformar em dor. Dois dias depois, ela começou a sentir cólicas e a perder sangue. Na terça-feira, fez uma ecografia e constatou o aborto. “Foi horrível. Em um dia, eu recebia os parabéns. Em outro, perdia (o embrião)”.

Na igreja, ela encontrou consolo e força. Era o que precisava para, três meses depois, fazer a segunda tentativa. Dessa vez, ela nem sequer engravidou. Ainda restava uma terceira chance, a de usar o espermatozoide de um doador. O embrião estava pronto para ser transferido. Flávia, porém, desistiu. “Orei muito e senti que não era para fazer. Que, na hora certa, ia acontecer o milagre na minha vida. Foi aí que me envolvi mais espiritualmente. Foi pela dor. Me batizei, me casei na igreja, me amadureci espiritualmente”, diz. Desde então, ela aguarda o milagre. “Todos os meses. Se Deus me prometeu, eu vou esperar.”

288 semanas de frustração

A gestação de Bárbara durou seis anos. Duzentos e oitenta e oitos semanas de espera, marcadas por momentos de ansiedade, euforia, frustração — mas, nunca, resignação. Andréa Visconte Martins, 38 anos, acreditava que, na hora certa, a menininha chegaria. E ela veio da forma mais inesperada. Depois de três tentativas de reprodução assistida que não deram certo, Andréa engravidou naturalmente. “Tentei garrafada, fiz promessa, plantei bananeira”, brinca a oficial do Exército, citando alguns dos métodos para os quais apelou.

Quando se casou com Wallace, em 2003, Andréa sabia que precisaria enfrentar uma batalha para ser mãe. Dez anos mais velho, o marido havia feito vasectomia, pois já era pai de dois filhos. A primeira tentativa aconteceu no ano seguinte ao casamento. “Eu estava completamente fora da realidade e achava que ia engravidar de uma vez”, diz Andréia. Foram R$ 15 mil investidos em um tratamento particular. Depois de um mês, a tenente fez a transferência do embrião. Andréia já se sentia grávida. Na véspera do BHCG (exame de gravidez), teve um sangramento forte. “Fiquei muito chateada. Meu marido começou a se sentir culpado por ter feito a vasectomia”, diz.

O casal não desistiu. Em 2004, Andréia se inscreveu no Hras, onde teria direito a mais duas tentativas. Quatro anos depois, foi chamada. Voltar ao tratamento significava passar por tudo de novo. Com um agravante. No hospital público, não há anestesista para fazer a captação dos óvulos. “Não tem como descrever a dor.” O resultado do teste foi negativo. “Cheguei a questionar Deus. Foi mais uma semana de frustração, choro, cama e chocolate.”

Sete meses depois, ela voltou para a terceira fertilização. “Eu estava mais racional, mas também muito confiante.” Dessa vez, engravidou. A alegria durou pouco mais de um mês. Em 24 de dezembro, véspera de Natal, enquanto famílias do mundo todo comemoravam, Andréia e Wallace choravam a perda do filho. “Foi o pior baque. Nunca vi meu marido chorar tanto. Foi uma tortura”, recorda-se.

O casal decidiu-se, então, pelo que Andréia chama de “golpe de misericórdia”. Mesmo tendo se submetido à vasectomia há mais de 10 anos, Wallace tentou a reversão. Ouviu que seria praticamente impossível. “Eu disse que não tinha problema, que era desespero mesmo.”

Espírita, Andréia estava folheando um livro de mensagens quando leu a frase “pássaros trarão boas notícias”. “Em setembro, dois bem-te-vis bateram na janela da minha casa e caíram no chão. Levei um pouquinho de água e, dali a pouco, eles voaram. Ali, tive certeza de que iria engravidar.” Os passarinhos, de fato, eram os portadores da mensagem esperada há seis anos. Naquele mesmo mês, o BHCG, enfim, deu positivo.

Prestes a chegar ao oitavo mês de gestação, Andréia acaricia a barriga e se diverte quando Bárbara se mexe, depois de o flash da câmera ser disparado. “Acho que eu precisava amadurecer. Todo esse sofrimento fez de mim uma pessoa melhor.”

A última tentativa

Maio será um mês decisivo na vida da contadora Emanuela Belmino Matos, 34 anos. Ela e o marido, Joaquim Pinheiro, 43, vão tentar, pela última vez, a reprodução assistida. Desde 2005, o casal quer gerar um filho, mas, para a surpresa de ambos, descobriram a infertilidade — os exames não conseguiram detectar o motivo.

A experiência começou mal. Na primeira clínica onde se consultou, Emanuela foi orientada a tentar a técnica da injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI, sigla em inglês), antes da fertilização in vitro (FIV). O processo de preparação é o mesmo da FIV, com injeções de hormônios que vão estimular a maturação dos óvulos. Depois, a mulher recebe uma injeção contendo o sêmen do parceiro. A véspera do procedimento foi marcada por ansiedade e expectativa. Porém, o médico não apareceu na clínica. Foi o primeiro baque. “Eu estava muito depressiva, chorava muito. É um tratamento doloroso”, conta Emanuela. Quando estava voltando para casa, o médico ligou. O casal retornou e fez o ICSI. “Não deu certo. Passei um tempo muito mal e mudei de clínica.”

Em outubro do ano passado, depois de outra sessão de reprodução assistida, Emanuela engravidou. “Eu não aguentei e contei para todo mundo”, relata. Como havia sentido cólicas, ela pensou que a inseminação não daria certo e só fez o teste de gravidez porque o médico cobrou. “Depois, fui trabalhar. O resultado sai em duas horas, pela internet. Acho que olhei para o relógio umas 500 mil vezes”, brinca. “Quando você faz a inseminação, você para de viver. Vive só em função da esperança de um positivo.”

Mesmo encantada com a gravidez, Emanuela optou pela precaução. Não comprou roupinhas de bebê nem qualquer outro acessório para a criança. Mas chegou a ver o feto em uma ultrassonografia e até escutou os batimentos cardíacos. Dois meses depois, ela perdeu a criança.

A contadora e funcionária do Superior Tribunal de Justiça chegou a pensar em desistir. “É muito doloroso. Você tem de juntar os caquinhos e ter força para recomeçar. Todo mês tento me apegar à chance de dar certo. Todo primeiro dia que menstruo, passo por esse luto”, diz. Em março deste ano, Emanuela fez a terceira tentativa. Em vão.

No mês que vem, ela vai tentar a fertilização in vitro. “Como a FIV aumenta as chances, minha esperança também aumentou. Por outro lado, esse é o meu limite”, alega Emanuela. Enquanto o filho não chega, a contadora exerce o instinto materno com a gatinha Lua, encontrada em Salvador e adotada por ela.

Até o dia da FIV, Emanuela procura não pensar no assunto. “É minha última chance.” Mesmo que não dê certo, ela sabe que será mãe. Juntamente com o marido, resolveu adotar uma criança, caso não consiga gerar o filho biológico. “O nosso sonho não é o de ter o bebê, mas de ser pai e mãe. Nosso amor já está prontinho, só esperando por ele.”

 
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